Filme escancara a cruel invisibilidade na cidade de São Paulo! Confira…

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Com uma atmosfera sombria, o filme representa em preto e branco os elementos invisíveis da cidade a partir da história ficcional de um ex-professor de cinema da Universidade de São Paulo (USP) que abandona tudo para morar nas ruas de São Paulo, acompanhado apenas por um carrinho de supermercado, um radinho de pilha, trapos e um cobertor.

O filme acompanha os lentos passos do velho pelas ruas do centro da cidade e apresenta seus encontros, sua solidão, a busca pela comida, a insegurança e os colegas, que tornam seus dias um pouco menos cinzas. Há também uma estudante (Ana Carolina Marinho) que procura pessoas em situação de rua para, a pedido de seu professor, entrevistá-las sobre como é a vida nessas condições.

A jovem registra em seu gravador histórias verdadeiras de pessoas que realmente vivem nas ruas de São Paulo. “Aqui na rua é um pelo outro. (…) A gente não pode ignorar ninguém porque ninguém sabe o dia de amanhã. Então, a gente tem que ajudar um ao outro”, diz, tímida, uma mulher de 60 anos.

É o encontro com o senhor de sotaque francês que faz com que a jovem se dê conta da crueldade que pode haver neste tipo de relação: alguém se aproxima de uma pessoa vítima da exclusão e da solidão, conversa e se interessa pela suas histórias como simples objetos de pesquisa ou “personagens” de uma reportagem, sem que esta interação traga nenhuma mudança efetiva na vida daquelas pessoas. “Quando eu fui pra rua, eu ficava imaginando o quanto é cruel essa caridade e essa compaixão que eu tinha por essas pessoas, porque eu chegava até elas e eu ia embora. E eu chegava até elas para que elas tivessem alguma coisa profundamente arrebatadora para que eu escrevesse, trouxesse para cá e você me desse uma nota sobre isso. Isso é tão pequeno, né?”, reflete a aluna.

Este parece ser o mea-culpa de Fome. Por que enxergamos essas vidas arrebatadas pela miséria apenas quando estão estampadas em uma tela de cinema ou nas páginas de um jornal? O filme retrata também a cruel “benevolência” dos que parecem encontrar uma certa paz no simples ato de oferecer dinheiro ou comida. A cena em que um casal acorda o senhor para lhe dar restos de uma comida cara é perturbadora. “Os burgueses, diante da miséria, eles sucumbem. Todos os outros, resistem.”

É intrigante que Cristiano tenha colocado um dos mais importantes pensadores do cinema brasileiro, um europeu branco, em uma situação de invisibilidade social. Não fosse seu português afrancesado, a aluna teria convidado o senhor para jantar em sua casa?

Com uma fotografia densa e um ritmo lento e pesado, o Fome é de difícil digestão pelo simples fato de escancarar que um filme será sempre apenas um filme. Assim como uma reportagem. Ou uma crítica. O que pode mudar realmente a vida de uma pessoa nessa situação? No caos violento das ruas há espaço para o amor? Essas são algumas reflexões trazidas pelo longa que ganhou prêmios em diversos festivais, entre eles o de Melhor Som e o Prêmio Especial do Júri pela atuação de Jean-Claude Bernardet no Festival de Brasília.

(Via agencia de noticia)

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